Dispositivos de agregação de peixes, será que valem o custo?

Fish Aggregation Devices

A menos que seja um pescador, provavelmente nunca ouviu falar de FADs (Dispositivos de Agregação de Peixes). Aquilo com que talvez esteja mais familiarizado, possivelmente de filmes sobre náufragos à deriva no meio do oceano (como o Unbroken), é a imagem de peixes a aproximarem-se das jangadas salva-vidas só porque é a única coisa a flutuar no deserto salgado. E a realidade não é muito diferente: qualquer objeto flutuante no meio do mar pode tornar-se um micro-habitat que atrai organismos, incluindo espécies de interesse pesqueiro.

É precisamente nisto que consistem os FADs, estruturas flutuantes concebidas para concentrar cardumes de peixes, que normalmente estariam espalhados por grandes áreas, no mesmo local, facilitando assim a sua posterior captura. Existem dois tipos principais: 1) FADs ancorados, que se mantêm sempre na mesma posição; e 2) FADs à deriva, que se movimentam livremente para onde quer que os ventos e as correntes os levem e são geolocalizados via satélite (FAO, 2012). O uso de FADs tem vindo a aumentar desde meados dos anos 90 e está a tornar-se mais comum em todo o mundo. Por exemplo, atualmente, cerca de 70% da pesca do atum tropical com redes de cerco com retenida depende dos FADs (Hallier & Gaertner, 2008).

Os FADs podem ser um método eficaz para uma pesca mais eficiente do atum, mas estes dispositivos são considerados uma das causas da degradação do estado de saúde desta espécie. A seleção enganosa de habitat (os animais são “forçados” a selecionar áreas FAD às quais também as suas presas são atraídas) e as consequentes alterações nos padrões de alimentação relacionadas a habitats pobres, afetam a nutrição do atum, uma vez que reduzem o tamanho/biomassa dos indivíduos e a saúde dos mesmos (Hallier & Gaertner, 2008). Desta forma, embora “eficientes”, os FADs têm um enorme impacto na sustentabilidade da população de atum e, portanto, na pesca do atum. Por exemplo, um modelo de ecossistema da Western Pacific Warm Pool Province mostrou que a redução do esforço dos FADs em pelo menos 50% no Oceano Pacífico pode aumentar a biomassa das espécies de atum, e devolver a pesca a um estado pré-industrial em 10 anos (Griffiths et al., 2019).

Infelizmente, os FADs não afetam apenas o atum, mas trazem múltiplos problemas aos ecossistemas marinhos e representam uma ameaça para inúmeras espécies, como tartarugas marinhas, focas, golfinhos e baleias que também são atraídos por eles. Estas não só estão sujeitas à captura acidental, como também podem ficar emaranhadas nas linhas do próprio dispositivo, podendo causar lacerações ou até a morte por asfixia (NOAA, 2017).

Em 2018, estimou-se que apenas cerca de 10% dos FADs implantados foram recuperados por um navio. Quando abandonados, tornam-se lixo marinho e podem causar a chamada “pesca fantasma” (Hallier & Gaertner, 2008).

Para além de impactos diretos, impactos indiretos que podem alterar as populações de cetáceos também já foram identificados. Por exemplo, tal como nos atuns, os animais podem habituar-se a ter alimentos concentrados na mesma área, o que não ocorreria de forma natural (NOAA, 2017). A isto chama-se de “armadilha ecológica” e pode alterar a seleção de habitat por parte dos cetáceos.

Por todas estas razões, organizações como a Word Cetacean Alliance, da qual a Futurismo é parceira desde a sua fundação em 2013, apoiam iniciativas para apelar à gestão eficaz dos FADs, como é o caso da carta coordenada pela International Pole & Line Foundation que apela aos delegados da Comissão do Atum do Oceano Índico (IOTC):

É de referir que é de facto possível melhorar esses dispositivos, utilizando designs anti-emaranhamento, sem cabos pendurados, ou utilizando materiais biodegradáveis para mitigar os efeitos dos dispositivos perdidos (MSC, 2018). De facto, nós na Futurismo podemos atestar este último ponto, pois encontrámos um FAD perdido num dos nossos passeios marítimos há cerca de 2 anos.

A implementação de “Pingers” (dispositivos de dissuasão de golfinhos), que já são utilizados hoje em dia noutras artes de pesca, podem também ser uma opção para mitigar o impacto nas espécies de golfinhos. Como consumidor, uma forma de lutar contra os impactos derivados destes dispositivos é rejeitar peixes que provêm da sua utilização descontrolada.

Escrito por Jorge Pan Martinez

Referências:

Davies, T.K., Mees, C.C., & Milner-Gulland, E.J. (2014) The past, present and future use of drifting fish aggregating devices (FADs) in the Indian Ocean. Marine policy, 45, 163-170.

Hallier, J. & Gaertner, D. (2008) Drifting fish aggregation devices could act as an ecological trap for tropical tuna species. Marine Ecology Progress Series, 353, 255–264.

Hanich, Q., Davis, R., Holmes, G. et al. (2019) Drifting Fish Aggregating Devices (FADs). Deploying, Soaking and Setting – When is a FAD ‘Fishing’? The International Journal of Marine and Coastal Law, 34, 731-754.

Baidai Y., Dagorn L., Amande M.J., Gaertner D. and Capello (2020). Mapping tuna occurrence under drifting fish aggregating devices from fisher’s echosounder buoys in Atlantic Ocean. ICCAT, 76(6): 777-784

Griffiths, S. P., Allain, V., Hoyle, S. D., Lawson, T. A., and Nicol, S. J. (2019)Just a FAD? Ecosystem impacts of tuna purse-seine fishing associated with fish aggregating devices in the western Pacific Warm Pool Province. Fisheries Oceanography, 28: 94-112

FAO (2012) Anchored Fish Aggregating Devices (FADs) for Artisanal Fisheries http://www.fao.org/3/ar482e/ar482e.pdf

NOAA (2017) Fishing Gear: Fish Aggregating devices https://www.fisheries.noaa.gov/national/bycatch/fishing-gear-fish-aggregating-devices

MSC (2021) What is FAD free Tuna https://www.msc.org/en-au/what-you-can-do/eat-sustainable-seafood/what-is-fad-free-tuna

MSC (2018) Tuna FADs and bycatch https://www.msc.org/en-au/media-centre-anz/news-views/2020/03/03/tuna-fads-and-bycatch

Morgan, A.C. (2011) Fish Aggregating Devices and Tuna: Impacts and Management Options. Ocean Science Division, Pew Environment Group. https://www.pewtrusts.org/~/media/legacy/uploadedfiles/peg/publications/report/pegosdfadsenglishfinalpdf.pdf

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