A estudar o som dos cachalotes a socializar em São Miguel

sperm whales acoustic

Em maio, tivemos a sorte de avistar um grupo de seis cachalotes machos a descansar na superfície. Na Futurismo aproveitamos todas as oportunidades para recolher dados, aprender mais e contribuir com informação para a comunidade científica. Decidimos colocar o nosso hidrofone na água. Nós não apenas descobrimos que os seis machos estavam a comunicar, mas também tivemos a oportunidade de registar a comunicação. A gravação de um avistamento tão incomum foi a maneira ideal de comemorar o Ano do Som de 2021, uma iniciativa global da Comissão Internacional de Acústica (ICA) para destacar a importância do som em diferentes aspetos da vida na Terra.

Pouco se sabe sobre a vida social dos cachalotes machos. Geralmente, os cachalotes machos permanecem no grupo familiar até de tornarem juvenis. Os machos jovens reúnem-se para formar “grupos de solteiros” antes de atingirem a idade adulta e, depois, separam-se para viver principalmente solitários (Whitehead, 2003). Um estudo recente de Kobayashi et al. (2020), demonstrou como cachalotes machos do Estreito de Nemuro, no Japão podem manter ligações uns com os outros de longo prazo. Alguns acontecimentos, como encalhes com vários indivíduos, também sugerem os possíveis laços sociais fortes entre cachalotes machos, mesmo com indivíduos de diferentes regiões de reprodução (Kobayashi et al. 2020; Autenrieth, 2018).

Então e nos Açores, como é?

O avistamento deste grupo de machos foi algo invulgar nos Açores. Aqui, os cachalotes machos adultos são avistados ocasionalmente principalmente sozinhos ou provavelmente para acasalar com fêmeas (van der Linde & Eriksson, 2019), enquanto machos mais jovens são frequentemente avistados dentro do seu grupo familiar (Clarke, 1956). No entanto, grupos de solteiros não são vistos com tanta frequência por aqui e, neste caso, eles realmente pareciam indivíduos adultos!

Após a análise do som, conseguimos distinguir três tipos de cliques: (1) alguns mais intensos que os demais, com intervalos entre cliques (ICIs) de 4 segundos, que podem ser ouvidos ao longo de toda a gravação (Gráfico 1); (2) outros cliques menos intensos que lembram o som de uma bola a cair no chão, com pausas mais curtas com o passar do tempo, que se sobrepõem ao som anterior (Gráfico 1); (3) três últimas repetições de um padrão sonoro de cliques rápidos no final da gravação, lembrando uma porta enferrujada a abrir-se com 2 cliques a mais separados dos outros 6 a 7 cliques (Gráfico 1,2).

“Cliques” de Cachalotes

Tentamos ligar alguns desses sons a um determinado tipo de som descrito. Os primeiros cliques podem ser cliques lentos (Wahlberg, 2002; Carwardine 2020). É provável que sejam usados como uma exibição acústica em áreas de reprodução, como os Açores, com o objetivo de mostrar habilidades de competição e maturidade (Weilgart & Whitehead, 1988). Os cliques em forma de porta enferrujada lembram rangidos superficiais, que podem ser usados para localizar objetos na água (Carwardine, 2020).

Nos últimos meses, na Futurismo, temos feito gravação de sons regularmente, a tentar compreendê-los e a descobrir aos poucos e poucos mais sobre o reino acústico do cachalote. Um longo caminho a percorrer, mas o primeiro passo mais difícil, que é começar, está feito 😉

Talvez um dia possamos descobrir o que estes machos estavam a dizer:

  • Eu sou melhor do que tu para acasalar com essa “menina” (cliques lentos).
  • Que interessante é este hidrofone na água! (explorando o que se passa à sua volta com ruídos na superfície).
  • Ótima conversa hoje com os meus amigos (codas).

Esclareceremos estas conclusões nos próximos meses com a equipa de biólogos e parceiros. Portanto, fique atento para acompanhar a história!

Bibliografia

Autenrieth M. et al., (2018), Putative origin and maternal relatedness of male sperm whales (Physeter macrocephalus) recently stranded in the North Sea, Mammalian Biology, Volume 88, pages 156-160, ISSN 1616-5047, link: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1616504717301337>

Carwadine, M., (2020), Handbook of whales, dolphins and porpoises, BLOOMSBURY WILDLIFE, London, ISBN HB: 978-1-4729-0814-8.

Clarke, R.B., 1956. Sperm Whales of the Azores. PhD Thesis. University Press.

Kobayashi H, Whitehead H & Amano M., (2020), Long-term associations among male sperm

whales (Physeter macrocephalus), PLoS ONE 15(12): e0244204, link: <https://doi.org/10.1371/journal.pone.0244204>

van der Linde, M.L. & Eriksson, I.K. (2020), An assessment of sperm whale occurrence and social structure off São Miguel Island, Azores using fluke and dorsal identification photographs. Marine Mammal Science, 36(1), 47-65. https://doi.org/10.1111/mms.12617

Wahlberg M., (2002), The acoustic behaviour of diving sperm whales observed with a hydrophone array, Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, Volume 281, Issues 1–2, pages 53-62, ISSN 0022-0981, link: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022098102004112

Whitehead, H. (2003). Sperm whales: social evolution in the ocean. University of Chicago press.

Weilgart L. S. & Whitehead H., (1988), Distinctive vocalizations from nature male sperm whales (Physeter macrocephalus), Canadian Journal of Zoology, link <https://cdnsciencepub.com/doi/10.1139/z88-282>

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